Saturday, January 5, 2008

Energias

Percebi pelo telefonema que desfilava um rol de desculpas amanhadas à pressa entre goles de café. Senti-lhe o nervosismo que se libertava em pequenas e múltiplas partículas e se espalhava pelo ar como vírus implacáveis que nos contagiam.
Olhei, curiosa, subitamente despertada da dormência. Sei que detectou o meu olhar, mas nem por isso me intimidei.
Agitada, atirou à pressa para dentro da mala todos os objectos que espalhara sobre a mesa. Assim vestida de preto emanava uma energia pesada e o chapéu e óculos de sol, também eles da mesma cor, gritavam medo, vergonha, culpa ou algo assim.
Escondeu-se do meu olhar, mais, fingiu não me ver, fingiu não ver ninguém naquela sala ampla e cheia de pessoas.
Engoliu o último gole de café, desesperada, como se fosse efectivamente o último de todos. Saiu em passo rápido, a cabeça baixa de quem não quer ver nem ser vista. Desaparaceu.
Fiquei ali a sentir ainda a nuvem pesada que deixou para trás. Senti-me acossada pelo rasto do seu nervosismo. Deixei-me assim estar por breves momentos.
Depois saí, à procura de um rasto de luz.

2 comments:

Su said...

Nem todos temos força suficiente para enfrentar de frente a mais simples verdade...
:)

Bejo.

Gione said...

Se calhar precisava de uma energia alternativa ... se calhar precisava, apenas e muito, de fumar um cigarro.